Diálogo sobre a necessidade de existência da polícia militar
Victor:
Depender de uma instituição que te espanca se você não se comporta, mas que você precisa dela para não sofrer com a violência da própria sociedade civil… Não parece que existe um modo mais fácil?
Henrique:
Não, as pessoas são sem noção.
Victor:
As pessoas precisam de policiais batendo nelas, se não elas não se comportam, pela própria natureza delas.
Henrique:
Mas é basicamente isso mesmo. Não tô falando que é a “natureza” porque isso raramente pode ser considerado como algo que realmente exista. Mas em relação ao modo voluntário de comportamento das pessoas como elas agem quando não constrangidas por instituições repressivas. Viu-se aqui esses dias. Como? Fazendo arrastão e linchando bandido. E eu tenho certeza que se existisse porte de arma, tinha saído gente para atirar em gente com cara de bandido.
Victor:
você sabe que esse comportamento agora não caracteriza uma tendencia de nada
Henrique:
Não?
Victor:
Não, isso se chama estado transitório.
Henrique:
Quando a polícia não está de greve, ela não pode estar mais do que em alguns pontos específicos a cada momento. Logo, isso que aconteceu hoje poderia ter acontecido há um mês atrás com a polícia funcionando. Agora… as pessoas não fazem porque têm medo de estar no lugar onde a polícia pode alcançar.
Victor:
A sociedade não é acostumada a viver sem algum tipo de repressão. Quando tira essa repressão, é natural que ela se torne caótica. Isso não significa que ela não possa viver sem essa repressão. Porque as pessoas funcionam aqui, agora, desse jeito, não quer dizer que elas só possam funcionar assim.
Henrique:
Quando você retira a repressão, justamente: o que sobra é aquilo que as pessoas gostariam de fazer mas não podem por causa da repressão.
Concordo com você: aqui, agora. Na Suécia não é assim, na Nigéria não é assim, na Somália não é assim. Mas aqui, agora, é assim.
Victor:
Quando o ditador de um país é assassinado, o país entra em caos, isso não quer dizer que não dê pra viver com um presidente eleito.
Henrique:
Não dá pra extrapolar essa comparação. São dois níveis de análise muito diferentes. Qual seria o outro modo então? Seria o modo onde as pessoas não cometeriam crimes voluntariamente?
Victor:
A condição não determinante é: nós criamos e condicionamos uma sociedade em que a polícia é necessária. Um belo momento a polícia não está lá e… olha, que surpresa, ela é necessária. Claro, a gente fez com que ela fosse! Mas isso não significa que ela precisa ser.
Henrique:
Sim, Victor… mas a sua conexão não determinante é apenas um evento que está na base de todo um contexto. É como falar que a sociedade criou a necessidade de usar roupas em público, mas que na realidade não se precisa usar roupas em público. Isso é quase uma tautologia, é fácil falar de uma sociedade sem polícia numa sociedade sem polícia.
Victor:
Assim como é fácil falar de uma sociedade que precisa de polícia numa sociedade que foi moldada para a polícia ser necessária. Corta a possibilidade de uma saída alternativa.
Henrique:
O problema é que essa é a nossa sociedade. É por isso que estou partindo disso. Porque isso é o que existe. Concordo com você que não é o único jeito, concordo com você que isso não é natural, concordo com você que existem outros modos de organização da sociedade, mas ESTE modo que existe e é operante é o modo que foi formado desse jeito pelos desdobramentos históricos dos ultimos 500 anos. Ignorar isso “teoricamente” é como fazer um barco que afunda e dizer que a água está errada.
Victor:
De novo: uma instituição criada para servir aos interesses de uma minoria, baseada no terror que a maioria tem da violência, que nunca foi capaz de exterminar a violência, mas, pelo contrário, a propria existencia dela depende disso. Isso é realmente a melhor solução?
Henrique:
Não sei se é. Mas qualquer outra solução vai ter que levar em conta que se a polícia faz uma greve de 3 dias, uma cidade como a nossa entra em colapso.
Victor:
CLARO! Mas o que eu quis discutir é: a PM é um mal necessário sem alternativa?
Henrique:
Você concorda que essa sua solução corresponderia a convencer TODAS as pessoas a, voluntariamente e definitivamente, desistir de comportamentos não-cooperativos?
Victor:
Não. Perceba, todas as idéias que se propõem a mudar alguma coisa tem a tendência a creditar uma “bondade” inerente ao ser humano. Todo mundo de mãos dadas, pombas da paz voando, distribuição de comida, amor livre e um pôr do sol bonito. Não estou falando disso.
Henrique:
Não estou falando em bondade também, estou falando em cooperação social. Você não precisa ser bonzinho para cooperar com a sociedade. Basta que seja mais importante para você cooperar do que não cooperar e isso ACONTECE em muitos lugares, ué.
A instituição repressora serve, entre outras coisas, para aumentar o custo de não cooperar. Se você quiser matar o seu vizinho, você vai levar em conta os custos de ser preso.
Victor:
Concordo. Esse é um ótimo ponto, muito eficiente. Então concordamos que a policia estabelece um modo concreto e eficiente das pessoas não fazerem coisas erradas. Mas a polícia é regulada e mantida por um sistema que determina o que é certo e o que é errado. Professores protestarem, por exemplo, parece ser errado, já que eles sangram depois disso.
Henrique:
ISSO é uma das coisas que acho imprescindivel em qualquer sociedade: um sistema que determine o que é certo ou errado.
Victor:
Concordo com você. É difícil conceber alguma coisa que foge disso. As pessoas precisam de um conceito de certo / errado. Se é a Igreja, o governo ou seus pais, não importa muito.
Henrique:
Logo, uma sociedade sem polícia seria aquela na qual os custos de fazer o que é socialmente aceitável como cooperativo fossem menores do que se fazer o que não é cooperativo na grande maioria das situações para grande maioria das pessoas na maior parte do tempo.
E eu acho que é isso que acontece em sociedades muito pequenas. As pessoas não fazem o que é “errado” porque os custos de fazer isso perante a sociedade são altíssimos.
Victor:
Eu concordo, mas e a solução para sociedades maiores?
Henrique:
Jackpot.